quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Seguimos juntos?

- És estranha.
- Não sou.
- É sim!
- Sou quase isso.
- Que és?
- Muito estranha.
- Porque és?
- Porque quero.
- Que graça há em ser estranha?
- Que graça há em ser normal?
- Não sei... Sou igual a todo mundo.
- É isto que me incomoda.
- Por quê?
- Não sei, talvez sejamos só mais uma alma, me sentiria pequena sendo igual a todos.
- Não me sinto assim, todos somos só mais um no mundo.
- Não, você é só mais um.
- E o que és?
- Sou meu mundo.
- Não seja tão egoísta.
- Não sou egoísta, só não aceito ser só mais uma peça nesse quebra-cabeça infinito.
- Mas o mundo não é infinito.
- A burrice sim.
- Estás me chamando de burro?
- Não, só estou a dizer que tens a cabeça pequena.
- Que queres dizer com isso?
- Que não aceitas outra opinião que não seja de tua crença.
- E que isto tem a ver com cabeça pequena?
- É sentido figurado, criatura, viu como estamos entrando em uma discussão por bobagem?
- Você também está.
- Tenho argumentos.
- E eu não?
- Estás na base do "mas" e "por que".
- Não estou.
- Está sim.
- Tu se sente tão culta, não é?
- Não, não sou de regras.
- Nem as de português?
- Nem as da vida.
- E como vives?
- Simplesmente vivo, apenas vivo.
- Sem regras?
- Gosto de dizer que sem complicações.
- Parece-me mais estranha agora.
- Porém feliz.
- Não parece.
- Como já dizia Guimarães Rosa: "Infelicidade é questão de prefixo".
- E como estás?
- In felicidade.
- És feliz sendo estranha?
- Sou feliz sendo eu.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faça.
- Quem és?
- Sei-o bem, mas não hei de explicar, a única verdade é que vivo.
- Ah...
- Lembro-me um pouco de Clarice quando falo isso.
- Que Clarice?
- Lispector.
- Quem é?
- Escritora.
- Ela é um pouco melancólica, não é?
- Talvez, por quê?
- Parece contigo, um tanto sozinha também, sabe?
- Ouvi dizer que também nos sentimos sozinho junto as outras pessoas.
- Sei.
- De verdade, conheço gente que tem tudo e é vazio.
- Tipo quem?
- Você.
- E como sabes?
- Quando a tristeza é muito transparece.
- É que às vezes é um pouco difícil seguir em frente.
- Eu sei.
(Silêncio)
- Seguimos juntos?
(Silêncio)
- Sempre...

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